Contafio

Design de livros

Design de livros

Como são feitos os projetos gráficos de obras do mercado editorial

19
01.2012
0

"Nunca julgue um livro por sua capa". O famoso ditado mostra que, por trás de uma apresentação ruim, pode haver boas ideias. Entretanto, é bastante claro que a maioria das editoras não leva isso em consideração e acredita que é possível unir um bom design a um bom conteúdo. E até mesmo o Prêmio Jabuti já homenageia obras com as melhores capas, ilustrações, produção editorial e projetos gráficos. Mas, como é feito o projeto gráfico de um livro?

Ricardo Campos Assis: “Para ser um bom designer de livros, antes de tudo, é preciso ser um bom leitor.”Em entrevista, o designer Ricardo Campos Assis, fundador da Negrito Produção Editorial (que carrega em seu currículo dois prêmios Jabuti em Produção Editorial), fala sobre design de livros e de como são feitos os projetos gráficos dessas publicações.

Como é pensado o design de um livro? A editora/autor vem com uma proposta ou o designer é quem deve fazê-la? Como funciona esse processo?

Assis: O design de um livro normalmente é ditado pelo tipo de livro que a editora quer publicar. Um livro de arte ou de fotografia é substancialmente diferente de um romance ou de um livro de contos, por exemplo. Cada tipo de livro tem suas especificidades, que devem ser previstas no projeto gráfico. Na maioria das vezes, o formato do título já é definido de antemão pela editora, cabendo ao designer desenvolver um projeto dentro do que já está preestabelecido. A partir daí, o designer vai escolher o papel, o tipo de letra, a entrelinha, vai projetar a mancha de texto, além de pensar a colocação dos cabeços e números nas páginas. Depois, ele apresenta sua proposta à editora, que irá aprovar ou fazer eventuais observações.

Como costuma ser a interação com os autores? Costuma haver uma parceria na hora de determinar o design? Como funciona esse relacionamento?

Assis: O contato do designer normalmente é o editor ou o pessoal da produção de uma editora. Raras vezes entramos em contato diretamente com o autor, por uma razão muito simples: nem sempre o autor sabe o que é um projeto gráfico adequado ou qual o aspecto correto que um livro deve ter. Por isso, é muito importante a mediação da figura do editor, que tem uma visão mercadológica e editorial mais aguçada sobre o universo dos livros. Isso não quer dizer que não conversemos com o autor para que ele explique, por exemplo, sobre o que o livro trata. Mas preferimos que as opiniões referentes ao projeto gráfico sejam dadas pelo pessoal da editora, senão corremos o risco de ter que fazer um projeto que agrade o gosto pessoal do autor — o que pode ser ruim para o produto livro.

Richard Hendel afirmou que “O trabalho real de um designer de livros não é fazer as coisas parecerem ‘legais’, diferentes ou bonitinhas. É descobrir como colocar uma letra ao lado da outra de modo que as palavras do autor pareçam saltar da página. O design de livro não se deleita com sua própria engenhosidade; é usado a serviço das palavras. Um bom design só pode ser feito por pessoas acostumadas a ler — por aquelas que perdem tempo em ver o que acontece quando as palavras são compostas num tipo determinado”. Você concorda com essa afirmação? Como usar o design a serviço das palavras?

Livro “A Plumária Indígena Brasileira” recebeu prêmio Jabuti em produção editorial.Assis: Essa talvez seja uma das afirmações mais corretas que já li sobre design de livros. Para uma pessoa ter sucesso como designer de livros, ela precisa ser, primeiramente, uma boa leitora. Mais do que saber desenhar ou ser um bom artista plástico. O design de livros é resolvido nos detalhes: no ajuste de mancha de texto, do tamanho da letra, do tamanho da entrelinha — é no ajuste fino de todos esses elementos que nasce um bom projeto gráfico. Usar o design de livros a serviço das palavras significa, na maioria das vezes, trabalhar exclusivamente com a letra. É justamente evitar enfeitar a página com fios, vinhetas, desenhos e outros elementos decorativos que não tenham o propósito de estarem ali e que só se justificam para fazer a página parecer bonitinha. Por isso essa afirmação de Richard Hendel é tão pertinente e cabível.

A capa é um dos elementos mais importantes do livro, a primeira impressão de uma obra. Como fazer com que esse elemento resuma o livro e ainda dê o destaque necessário em uma livraria, em meio a muitos outros livros?

Assis: Vou ser totalmente honesto nesta resposta. A capa do livro sempre será um mistério e sempre será somente uma entre as infinitas versões que poderiam ter sido desenvolvidas. Por isso, a questão da capa é muito delicada. Ela pode agradar a uns e desagradar a outros, sempre será uma questão muito pessoal. E também sempre me pergunto: por que uma capa tem que se destacar numa livraria? Ela não é um outdoor! Cada livro tem um tipo de capa específica e, em minha opinião, ela deve sempre conversar com o design do miolo do livro. A grande questão que me incomoda um pouco é que agora elas não são aprovadas somente pelo editor, mas têm que ser submetidas a departamentos como o marketing e o comercial. Com isso, acabam passando pela aprovação de pessoas que às vezes não estão preparadas para julgá-las.

enviar um novo comentário

Comentar como visitante ou logar:
  • Facebook
  • Twitter




@CONTAFIO// siga-nos

Contafio

Marketing, propaganda, mercado editorial, design e produção gráfica. O portal Contafio é o ponto de encontro de todos estes assuntos. Qualquer que seja a sua preferência, aqui você vê notícias, entrevistas, artigos, eventos e tendências sobre todas estas áreas.

política de privacidade termos de uso
Positivo