Elas estão por toda parte: placas, faixas, pintadas nas paredes ou em letreiros de restaurantes e bares. Trata-se da tipografia popular brasileira, que também pode ser chamada de tipografia vernacular urbana. Elas podem parecer casuais, mas há quem se dedique a estudar esse tipo de fontes e até mesmo a criar tipografias digitais com base nessas letras tipicamente brasileiras.
Pedro Moura é um dos designers brasileiros que realizou um projeto com tais fontes. Em 2004, durante seu trabalho de conclusão de curso para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele criou o projeto “Tipos Populares do Brasil”. Trata-se de um site que chegou a disponibilizar gratuitamente para download fontes de seis designers diferentes, todas baseadas na tipografia popular brasileira.
“Meu interesse por essas fontes se deu porque eu queria discutir a identidade brasileira. Se você pensa em uma fonte como Didot, por exemplo, logo se lembrará da cultura francesa no século 18. E eu queria entender qual era a fonte que representaria a cultura brasileira. Além disso, cresci em Macaé (RJ), uma cidade pequena, e lá eu via frequentemente essas tipografias — em letreiros e fachadas de estabelecimentos”, conta Moura. Desse projeto saiu também a fonte Tetéia, que chegou a fazer parte de uma exposição de tipografia vernacular no Recife.
Para criar essas fontes, ele conta que teve de “desapegar-se um pouco do conhecimento acadêmico. Fui aprender como eram feitas as fontes, saí coletando amostras e fazendo pesquisa de campo”, afirma.
Outro designer que tem trabalhado com o assunto é Vinícius Guimarães, através do projeto “Tipografia Artesanal Urbana”, que tem como objetivo a produção de fontes digitais que tragam em si características encontradas nas fontes artesanais encontradas nas cidades.
Assim como Moura, seu interesse por tais fontes começou na faculdade. “O interesse surgiu ainda durante a universidade (cursei Programação Visual na Escola de Belas Artes da UFRJ). Começou quando constatei a importância da teoria da tipografia para a prática do design gráfico e, depois, quando conheci trabalhos que buscavam referências populares, fora do campo do design ‘culto’, realizados na própria faculdade e por muitos profissionais”, explica o designer.
Design com sotaque
De acordo com Moura, o design não pode ser neutro o tempo todo. “Ao pegar uma fonte como a Helvética, por exemplo, que pode ser utilizada em qualquer país, podemos dizer que ela tem um tom de voz que não existe. E alguns projetos gráficos precisam de certo sotaque”, pontua o designer.
Guimarães, por sua vez, pensa que a tipografia popular brasileira possui muitas e diferentes faces. “Para citar alguns exemplos, temos os letreiros em beiras de estrada feitos por autores incidentais (não especialistas), que chamam atenção pelas formas inusitadas resultantes da imperícia de seus autores; os pintores de letras que atuam nas grandes cidades, que no caso do Rio de Janeiro produzem letras mais simples, para uma leitura mais imediata; ou ainda os “abridores de letras” de barcos que navegam por rios no norte do país, com suas letras decorativas que ecoam um estilo vitoriano do século 19. O que podemos afirmar, e isso graças às pesquisas que vêm sendo realizadas nos últimos tempos, é que a tipografia popular possui aspectos ligados à localidade e ao contexto no qual é produzida. Por isso, um país do tamanho do Brasil possui tanta diversidade de exemplos”, esclarece.
Aplicações das tipografias populares
Moura relata que as fontes criadas em seu projeto tiveram uma boa repercussão. “Cheguei a ver uma das minhas fontes em um anúncio de um filme da Globo Filmes. Tomou uma proporção de que eu não tinha noção”, revela o designer.
Guimarães acredita que essas fontes possuem uma boa demanda no Brasil. “A principal razão é sua utilização ser um recurso comum quando se busca reproduzir uma linguagem local, tema que sempre surge para os designers no país. Temos como exemplo a identidade visual adotada pela banda Os Paralamas do Sucesso desde o CD “Brasil Afora”, presente no próprio disco, no site e produtos, onde é possível encontrar grande parte da produção das fontes vernaculares feitas por brasileiros nos últimos anos”, assegura.
Marketing, propaganda, mercado editorial, design e produção gráfica. O portal Contafio é o ponto de encontro de todos estes assuntos. Qualquer que seja a sua preferência, aqui você vê notícias, entrevistas, artigos, eventos e tendências sobre todas estas áreas.
política de privacidade termos de uso