Nada inquieta mais um leitor contumaz e bibliófilo pobre do que a perspectiva da leitura digital. É bem verdade que o advento da televisão já anunciava o fim do livro com suporte de papel. E é certo que a invenção da imprensa destronou para sempre o manuscrito (embora não com a rapidez que se imagina).
A produção do livro atingiu alturas inimagináveis com a 3ª Revolução Industrial. O barateamento e a diminuição do ciclo de rotação do capital fixo e circulante invertido na edição e, por fim, o livro eletrônico ou disponível virtualmente on demand mimetizaram processos que ocorrem na indústria em geral: Just in time, salário por peça (terceirização) etc.
O ramo livreiro, no entanto, ainda guarda muito espaço para o artesanato, e a atividade do escritor não se submete realmente ao capital. Daí o motivo pelo qual é difícil prefigurar o fim do livro em papel.
Livro: uma herança
Como disse recentemente Gunther Grass, muito provavelmente o livro voltará a ser o que era até o século 19 e um pouco depois: um bem valioso que se coleciona e se deixa como herança aos filhos. Um livro assim voltará a ser belamente encadernado. O prazer de ler também voltará a ser estético e físico.
Quanto ao conteúdo, é possível que só autores clássicos ou pensadores críticos e profundos venham a ter livros em papel. O livro virtual viverá muito bem nos futuros meios de informação que ainda sequer imaginamos. Hoje, já se pode dizer que a maior parte das teses acadêmicas que são “publicadas” on-line não precisam ser editadas em papel. Algumas o são por pura vaidade do autor ou porque as bancas de concurso de docentes talvez ainda valorizem edições tradicionais. Mas isso vai mudar, e o autor não precisará pagar a editoras ruins para lançar obras previsivelmente encalhadas. O que não implica que sejam inúteis. Elas serão mais pesquisadas através de programas “varredores” especializados em busca de dados precisos na Internet.
Da mesma maneira, os best-sellers dirigidos a públicos que leem obras que são produtos de campanhas publicitárias e pesquisas de mercado terão mais abrigo na Internet e a razão é simples: ninguém relê Sidney Sheldon hoje em dia, assim como ninguém sabe quem foi Otavio de Feuillet ou Humberto de Campos, bem-sucedidos escritores de suas épocas. Mas todos precisam retomar Dom Quixote ou Macunaíma. Estes viverão virtualmente para os leitores que quiserem fazer deles uso prático (o mais conhecido é o resumo para vestibulares), mas serão lidos e relidos em papel pelos que preferirem refletir sobre a literatura.
O e-book é uma benção, pois vai diminuir o custo ecológico do livro, salvando árvores que eram consumidas por livros de consumo rápido e frenético. Afinal, na rede (virtual), tudo se faz com rapidez. Na rede (real), tudo se faz com prazer.
Sebos
O maior exemplo da abundância inútil de livros que se excederam no século 20 são os sebos paulistanos. Acúmulos notáveis de obras magníficas ao lado de outras que nunca deveriam ocupar tanto espaço.
É provável, portanto, que, na nova era do livro, os sebos se tornem de novo antiquários de belas encadernações e raridades recônditas. Seus desvãos voltarão a ser motivos de encontros inesperados.
Os depósitos de livros, estes sim, desaparecerão. Os livros do futuro serão eternos.
Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na Universidade de São Paulo (USP). Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008) na Coleção Pauliceia.
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